O Amor Vive Para Sempre

O amor vive para sempre

O velho Michael, sentado em sua cadeira de balanço, com sua manta surrada sobre o colo, observava o mundo ao seu redor. Estava na varanda, observando o pôr do sol. Ao lado de sua cadeira, havia outra cadeira de balanço, com uma velha manta dobrada. Na mesinha de centro, logo à frente, duas xícaras de chá, uma vazia e uma pela metade.

– Que falta me faz Sunshine, que falta me faz a voz dela. – disse ele.

Por um momento, pôde ver o sorriso jovial dela entre as nuvens. Lembrou-se de quando se conheceram, ela estava tão linda… Tão meiga a Sunshine de Michael… Ela era o raio de sol dele. E agora, não havia mais sol, desde que ela partiu. Quando eles conheceram-se, Michael preso na fama e Sunshine presa numa vida solitária e limitada. Ambos não imaginavam sequer que encontrar-se-iam. Sunshine lutou contra todos os medos de Michael, estendeu-lhe a mão em todos os momentos, fossem bons ou ruins, espantou os monstros que havia somente nas fantasias infantis dele. Enfim, sempre esteve ali, apoiando, sendo companheira, mesmo antes de terem se casado.

Naquele dia, Michael sentia a falta dela mais do que já houvera sentido antes. Era uma saudade abrasadora, perturbadora, ela não deveria manifestar-se mais… Já fazia um bom tempo desde que ela se fora, ele tinha de aceitar, ora! Sim, ele sabia que tinha… Mas ele simplesmente não conseguia aceitar… Sentia falta da melodia que dos lábios de Sunshine saíam, sentia falta da paz que ela lhe trazia… Sentia saudade da liberdade que ele só tinha oportunidade de vivenciar com ela. Agora não tinha mais paz, nem liberdade, nem nada! Só tinha dor…

Os olhos do velho Michael foram fechando-se devagar enquanto ele relembrava o momento de seu primeiro contato com ela. Ele sorriu e sua mente viajou…

Sunshine usava um vestido branco soltinho, sapatilhas vermelhas e um xale vermelho. Os cabelos estavam selvagemente soltos, ondulando com o vento que batia suave em seu rosto oval e delicado. Os pequenos lábios estavam abertos num sorriso, e a voz era doce, suave, calmante. Ela cantava baixo, sempre medindo palavras.

– Você é meu raio de sol, meu único raio de sol… Você me faz feliz quando o céu está cinza… Você nunca saberá querido, como eu amo você… Por favor, não leve meu raio de sol embora… – cantarolava ela deitada naquele imenso campo de girassóis, encarando o céu azul cheio de nuvens gordinhas, tão suaves quanto a voz dela.

Após acabar a canção, ela riu e sentou-se. Passou as mãos nos cabelos e ficou de pé. O vento ainda batia em seus cabelos, e levou seu xale vermelho embora! Ela correu, tentando alcança-lo, mas era praticamente impossível… O vento estava veloz, e o xale era muito leve, ia à harmonia. Michael, que observava de longe, ouvia de longe e sentia de longe, viu quando o xale voou, apressou-se para pegá-lo na frente dela. Sunshine abaixou com as mãos nos joelhos e, ofegante, parou. Puxava o ar com força, respirava assim, com dificuldade, mas ao menos conseguia respirar.

– Posso ajudar, moça? – perguntou Michael, aproximando-se dela com um sorriso estonteante nos lábios.

Sunshine levantou a cabeça devagar e, bem junto a um raio de sol, ela viu seu sorriso faiscar. Sorriu-se também. Ele estava com as duas mãos estendidas, uma com o xale, outra vazia. Ela colocou a mão na mão dele e com a outra pegou o xale.

– Como se chama? – perguntou ele, mas logo foi calado por ela com seu dedo indicador e o polegar, formando-lhe um bico muito engraçadinho.

– Sou Sunshine.

– Sou M-

– Eu sei quem você é, dã! – e riu-se.

Sunshine passou o xale em volta de seus ombros e saiu correndo. O xale esvoaçava com a ventania repentina, e o céu foi escurecendo de uma só vez. Um trovão ecoou ao longe e Sunshine parou de correr. Michael, que havia ido atrás dela, parou junto, logo atrás.

– Tudo bem? – perguntou ele.

Sunshine não respondeu. Primeiro, ela levantou um dedo na direção de Michael, tentando fazer com que ele se calasse. Ele obedeceu. Alguns minutos passaram-se e ela virou lentamente pra ele.

– Estou esperando o momento certo. – ela respondeu enquanto caminhava até ele.

– Momento certo? Pra quê? – Michael franziu as sobrancelhas e ela parou a centímetros dele.

Como ela é pequena, o topo de sua cabeça ficou abaixo do queixo dele, e ele ficou mais ofegante do que quando estava correndo.

– Pra isso. – nesse exato segundo, a chuva começou a cair e ela abriu os braços, sentindo as gotas frias tocarem seu corpo.

Michael sorriu ao ver o sorriso dela. Ele deu um passo à frente, ela recuou um passo. Ele colocou a mão na cintura dela e ela esquivou imperceptivelmente. Ele deu mais um passo e ela colou, por fim, seu corpo no dele. Ambos estavam encharcados, a ventania era cada vez mais forte, e tudo o que se sentia era o cheiro de terra molhada. Michael colocou a outra mão no pescoço de Sunshine e ela envolveu os cabelos dele entre os dedos pequenos. Devagar, foram aproximando-se mais, e os lábios encontraram-se suavemente. Ela sorriu e ele também, e depois, fechando o sorriso, seus lábios começaram um movimento lento e provocante, suas línguas embolavam-se, sentindo o néctar de um amor que acabara de nascer. Quando o beijo acabou, Sunshine sorriu enquanto olhava para Michael, que estava de olhos fechados.

– Wow! – murmurou ele abrindo os olhos. – Nunca…aconteceu isso antes… – Michael segurou a mão de Sunshine e a beijou novamente.

A chuva fora embora, parecia ter sido enviada apenas pra que eles “sentissem”. E que sensação! De repente, eles se pertencem! Parecia ter sido escrito, escrito pra que acontecesse assim! Eles se entreolharam e, no céu, um novo raio de sol surgiu. O sol foi aparecendo como que por milagre e eles caminharam de mãos dadas pela vida, desde então.

O velho Michael abriu os olhos e seu sorriso desvaneceu-se. Ainda tinha memória pra lembrar-se de tais acontecimentos. Uma pequena lágrima formou-se em seu olho direito, e ela escorreu por entre suas rugas idosas. Ele suspirou e colocou os braços ao lado do corpo, apoiando-se nos braços da cadeira de balanço. Balançou uma vez e, num súbito, sentiu calor em sua mão direita.

– Eu sabia que viria. – disse ele olhando para a cadeira ao lado, onde estava a mesma Sunshine de anos atrás.

– Vim por você, meu velho. – murmurou ela. – Prometi nunca deixar você, não prometi?!

O velho Michael apenas acenou afirmativamente com a cabeça. A figura feminina a seu lado envolveu a mão dele com as duas pequenas mãos e sorriu. Os olhos do senhor Michael foram fechando-se lentamente…lentamente…lentamente… E, por fim, fecharam-se para sempre.

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3 thoughts on “O Amor Vive Para Sempre

  1. Manaaaaaaa.. Chorei, muito!
    Achei lindo, perfeito, maravilhoso esse conto, foi um dos mais tristes, mas o mais lindo que voce já criou *-*
    Parabéns por me proporcionar tanta emoção,
    Te amo
    Deus te abençõe smp ❤
    bjbj.

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