Sangrando

Sia – My Love

Sangrando

“O trem rolou. Era o n.º 10… Nunca mais o veria! Tinham palpitado no mesmo amor, tinham cometido a mesma culpa. – Ele partiria alegre, levando as recordações romanescas da aventura; ela ficava, nas amarguras do erro. E assim era o mundo!”
(O Primo Basílio; Cap. VIII – Eça de Queirós)

As janelas encontravam-se fechadas agora. Era o momento em que ele vendia prazer à mulheres desconsoladas e ricas. Ele adorava seu trabalho pútrido, porém no fundo de seu peito sentia uma angústia incessante e enlouquecedora. Queria mandar tudo àquilo para o espaço! Tudo para os diabos! Sentia-se só, mesmo tendo companhia… Suas memórias sempre voavam para o passado, quando teve o amor incondicional, mesmo sem o toque íntimo que ele doava à todas essas mulheres solitárias. Em seu corpo escultural, marcas do prazer forçado e pago, sem amor, apenas desejo… O que pensava ela agora? O que fazia ela agora? Certamente estaria vivendo sua vida, esquecendo tudo o que vivera com ele, sendo…feliz. O topo é solitário, pensava ele com pesar.
E lá estava ela, humildemente esforçando-se para dar seu melhor em seu pequeno trabalho fútil. Ela tinha potencial para o que quisesse, era bonita, inteligente, ela sabia disso! Mas rebaixava-se dessa maneira por puro medo! Eh bien, medo de quê? Medo de encontra-lo novamente enfiado debaixo das saias de alguma socialite poderosa, apenas por dinheiro. “Estou cuidando do nosso futuro!” jurava ele, escondendo dela seu maior segredo. Dizia-lhe que trabalhava, cantava e dançava, e ela nunca teve curiosidade suficiente para atrapalhar-lhe os planos… Acreditava piamente que ele estava fazendo o possível para serem felizes juntos! Tola, burra, vá lá idiota!, pensava ela com dor no peito.
Após uma tórrida noite de prazer incessante – para a socialite – ele saía daquele apartamento luxuoso, que tinha cheiro de riqueza. Acendeu um cigarro e encostou-se, com a camisa amarrotada meio aberta, a uma parede pixada. Sacou do bolso rasgado todas aquelas notas de dinheiro podre ganhados por meios podres, e contou cada uma delas. Havia dinheiro suficiente para juntar com o resto de seu “salário” e comprar uma casa para eles, uma pequena casa no Interior, com uma garagenzinha coberta, onde caberiam suas bicicletas e talvez, quem sabe, um carro popular… A decoração teria de ser simples, afinal ele queria guardar o que sobrasse daquele dinheiro para a futura faculdade do futuro filho com ela…
Após uma tórrida noite de trabalho incessante, saía ela do escritório de advocacia, onde era secretária. Enrolou seu pescoço com o cachecol de lã preto, seu rosto pálido recebia tons brancos do frio, seus lábios, antes rosados, encontravam-se agora arroxeados, sem vida. Ela jogou a bolsa no ombro e caminhou pela noite fria. Enquanto esperava o ônibus, decidira fazer aquilo que não fazia há muito! Decidira fumar. Acendeu um cigarro de cereja, adocicado, porém não menos nocivo, e encostou-se ao mastro do ponto de ônibus. Suspirou e rompeu num choro convulsivo. Há essa hora, estaria em casa fazendo isso… Mas decidira trabalhar até mais tarde, por um simples pedido de seu chefe. Tinha medo de perder aquele emprego, aceitava os riscos de sair à noite, solitária, tudo por medo! Dignidade era seu lema!
Ela chorando compulsivamente de um lado… Ele do outro lado da rua contando os frutos da madrugada. Quando ele ouviu os sussurros tristes dela, seu corpo – que queria ficar – lutava contra seu coração – que queria ir. Não suportando ver a tristeza da mulher que sempre amou, deixou que seu coração vencesse aquela batalha.
– Annie? – murmurou com a mão estendida pra ela.
Ao ouvir a voz dele, voltou seu rosto gelado e pálido para aquele sussurro.
– Michael? – franziu as sobrancelhas, as delicadas têmporas latejavam em confusão.
Ele atravessou a rua vazia, a brisa gélida tocava a pele clara e os olhos castanhos desmanchavam-se em lágrimas de saudade. Esquecendo todo o mal que causou à ela, ele a envolveu num abraço forte de consolo, de amor. Ela fechou os olhos e deixou-se envolver… Agora chorava com fúria, com raiva! O que tem ele na cabeça? Some daquela maneira, e quando volta já a abraça assim… Sem dar a mínima para o que fez? Ela batia no peito dele com os pequenos punhos cerrados, dizendo com os dentes cravados uns nos outros o quanto o odiava, e ele continuava abraçando-a forte… Percebendo que ela não pararia se ele não a forçasse a parar, ele a beijou.
Ela abriu um pouco os lábios, com relutância e ao mesmo tempo com desejo, deixou que ele a amasse, deixou que ele entrasse novamente em seu coração. Mesmo que isso fosse doer depois. Ela abriu os olhos e continuou batendo no peito dele, soltando de si qualquer pensamento de amor que houvesse! Ele a segurou pelos pulsos delicados e a encarou. Os olhos de ambos encontraram-se, o momento ficou repentinamente tenso. Os olhos dela, duros e frios, derreteram-se como duas safiras claras, pequenas e delicadas. Ela sussurrava que o amava, agora. E ele correspondia a isso com um sorriso, um largo sorriso apaixonado. Apertou o corpo dela contra o seu e a beijou novamente, porém ela, dessa vez, não lutou.
O ônibus que ela esperava enfim chegou. Parou por alguns minutos no ponto e ela soltou-se dele com certo medo… Que tipo de mulher era essa, que sentia tanto medo de perder! Mas um pensamento a fez perceber que fizera algo errado… Entrou no ônibus e sentou-se ao fundo. Ele estendeu a mão por fora da janela, chamando-a, e ela escorria os dedos pelo vidro frio, como se pudesse senti-lo.
– Não fuja de mim, Annie… Não fuja… – murmurou ele, a tristeza era evidente em sua voz. – Por favor, não se vá…
– Michael… Não posso fazer mais isso… – sussurrou. As lágrimas vertiam de seus dutos como uma cachoeira de tristeza.
– Por favor, Annie…
– Michael, eu vou me casar…amanhã.
Houve um silêncio. Os olhos castanhos dele arregalaram-se e ele sentiu como se tivessem dado um tiro pelas suas costas! Seus lábios entreabertos demonstravam o quanto ele não estava satisfeito em saber daquilo. E os planos que fizeram? Nada significaram? E as promessas de amor eterno feitas à meia-luz de um quarto aconchegante de Hotel? E tudo aquilo que ele pretendia fazer com seu dinheiro “suado”, o que fazer agora? Todo o esforço que fizera por meses e meses, por anos e anos, nada disso era mais importante?
– Annie… – a voz saiu fraca, torturada.
– Chegou a hora em que todas as luzes se acendem e a vida começa. E a minha vida começa amanhã, meu estranho. – disse ela enquanto secava os olhos com a barra do cachecol de lã.
O ônibus arrancou, deixou-o atônito na calçada, sofrendo, sangrando amor. Ele levantou o olhar e cerrou os punhos, furioso! Saiu socando tudo o que pudesse socar, batia em muros, o que lhe causava feridas dolorosas e sangrentas, porém não menos dolorosas e não mais sangrentas que seu coração ferido.

“E estas alegrias violentas, têm finais violentos. Falecendo no triunfo, como fogo e pólvora, que num beijo se consomem.”
(Romeu e Julieta; Cena VI – W. Shakespeare)

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